De volta para casa...
"Crônicas do Alf"
tópico inserido no site em 28/05/03
Dois cães vadios na Costa do Dendê
Ou Vina e Alf levam o Planeta Buggy até Valença

 

Alô, buggymaníacos do Planeta!!!

É o seguinte: vou tentar relatar da nossa missão de levar a cultura buggeira até os confins do nosso Estado... Eu e o Vina estivemos recentemente em Valença, na Costa do Dendê, Bahia, onde vivenciamos episódios inusitados (surreais, para ser honesto), que merecem ser contados numa mesa de bar, depois da 20ª ou da 21ª cerveja. Evidentemente, nem tudo pelo que passamos poderá ser dito aqui, no nosso site... Afinal, há crianças que freqüentam o Planeta Buggy!!! (risos)

Da Cidade
Tudo começou em fevereiro, quando fui passear com Ciça, a minha rádio-patroa, em Valença. Confesso que me apaixonei pela cidade... Já havia estado em Valença, mas nunca permanecido... Sempre usava Valença como meio de chegar a Morro de São Paulo, ou a Gamboa (dois dos maiores pólos do turismo baiano), porém nunca pensei nessa encantadora cidade como um ponto de estada. Bastou-me apenas uma semana para render-me ao seu charme...

Valença é uma cidade colonial de médio porte, situada no sul da Bahia. Com um passado riquíssimo e repleto de mistérios e augúrios; e um futuro promissor, ancorado na pesca, no turismo, no comércio e, sobretudo, na criação de animais – bovinos, asininos, muares e suínos (fenômeno relativamente recente e que vem suplantando, pouco a pouco, as tradicionais culturas de dendê, licurí e guaraná)...

Segundo o meu queridíssimo amigo Luiz Rafael Aroeira da Silva, historiador e pedagogo, nascido e criado na Ilha de Itaparica (e formado tanto nas acadêmicas cadeiras da Universidade Federal da Bahia, quanto nos terreiros de Candomblé de Egun da sua terra), em épocas do Descobrimento, essa região, que hoje compreende desde Nazaré das Farinhas até Nilo Peçanha, passando por todo o Arquipélago de Tinharé, era habitada por índios Tupi, Tupiniquim e Tapuia. Os portugueses tiveram bastante trabalho para invadir essas terras, pois os nativos eram ferozes e altivos.

Durante o período colonial, o sítio onde fincou-se Valença, por ordem de Dom João III, Rei de Portugal, pertenceu à Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Em 1571, foi oficialmente fundada a “Villa de Nova Vallença do Santíssimo Coração de Jesus”, habitada, principalmente, por indígenas, já apaziguados. Apenas em 1849, já no período republicano do nosso país, Valença seria alçada à condição de município, sob o nome de “Industrial Cidade de Valença”.

Com toda essa trajetória, não é de se estranhar que a cidade possua um belíssimo patrimônio arquitetônico. Pessoalmente, sou encantado pelos sobrados que estão dispostos ao longo da orla do Rio Una. À noite, da margem esquerda, Valença parece saída de alguma pintura distante, de algum recôncavo secular da minha Bahia amada... O Vina a achou perecida com Aracaju; eu não sei... Valença consegue ter uma personalidade forte o suficiente para impedir as inevitáveis comparações.
No mais, para não alongar mais a história e para entrar de vez na nossa doida incursão (risos), resta dizer que Valença possui também um inestimável patrimônio ecológico. Imensas extensões de manguezais perpassam a orla da cidade, constituindo-se (para usar o clichê mais convencional que os ecólogos conhecem – hehehe – num “berçário natural para várias espécies de peixes, crustáceos e moluscos”). Tem mata atlântica também... e praias desertas...

Da ida
Mas agora passemos à nossa ida a Valença. Saímos de Salvador, às 7:00 horas da manhã, do dia 12 de abril de 2003, através do Terminal Marítimo de São Joaquim, com destino a Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, onde tomaríamos um ônibus até Valença. No terminal, eu, com um profundo mau-humor (sempre fico de mau-humor quando acordo cedo demais, aos sábados... risos), consegui comprar briga com o dono da única padaria que poderia me oferecer um desjejum adequado. Pedi um café preto e amargo, e o cão danado começou a desenvolver uma lista de possíveis doenças que o hábito de tomar café de estômago vazio provoca. Aquilo foi demais! Depois de quase mandá-lo de volta à sua genitora, sai sem o meu café... Tanto pior para mim... (risos). O Vina, quando chegou, foi direto à tal padaria... Comeu e bebeu do que quis, e ainda passou uma cantada na atendente... Pode um cara desse existir? (gargalhadas).

Enfim, tomamos o Ferry Boat e chegamos em Bom Despacho (No caminho, fizemos as fotos do Bird do Josué). A viagem de ônibus foi longa e cansativa, nenhuma paradinha para um cigarro... Putz! Passamos a Ponte do Funil, saindo da Ilha, e seguimos por continente... Logo havíamos deixado Nazaré das Farinhas na poeira e pegamos a BA-887, direto para Valença. Fui papeando com o Vina e olhando a paisagem: dendezeiro atrás de dendezeiro... Parei de contar no dendezeiro de número 1.622.048...

Chegamos a Valença com o sol a pino. A entrada da cidade não é a coisa mais bela que há... Por incrível que pareça, Valença, linda e glamourosa, no seu porte de princesa, possui uma via de acesso horrorosa como o Subúrbio Ferroviário de Salvador. Mas chegamos. E fomos direto para a casa de Dalminho, um cara que tem um BRM amarelo, com estampas de uma clínica veterinária.

Dos Motivos
Preciso dizer que o motivo (ou a desculpa... risos) de termos ido a Valença foi esse buggy de Dalminho. Quando estive com Ciça na cidade, no início do ano, vi o BRM do cara e achei interessante o fato de alguém usar um buggy para conduzir cães (será que amarra as coleiras dos bichos no Santo Antônio?). Ao que parece, Dalminho, além de Vet é também criador de Pitbull. Olha só, já vi buggy de todo feitio e nas mais insólitas circunstâncias: desde carregando material de construção e puxado por jumento (aquele famoso episódio em Santo Antônio de Jesus, que relatei no fórum) até buggy de empresa de segurança, aqui em Salvador, repleto de guardas armados até os dentes. Mas levando cachorro... Isso é inusitado!
Falando com o Vina, resolvemos fazer uma pausa nessa loucura urbana que é SSA e ir atrás dessas cervej... Digo, dessas fotos tão especiais... Hehehe. Convencemos Cicília de que a nossa viagem era por uma boa causa, afinal, essa contribuição seria inestimável para o Planeta Buggy!!! A Ciça concordou – não sem antes nos lançar aquele olhar apertado e ladeado de quem pensa: “sei que história mal contada é essa...”. De forma que fomos. E o motivo oficial da nossa visita à cidade era o BRM do Dalminho (o qual, diga-se, não fotografamos... hehehe).

Da casa do Dalminho
Suando feito dois condenados, chegamos à casa do Dalminho. Ofegantes, por conta de uma ladeira... Desanimados por falta de cerveja e excesso de sol. Fomos recebidos por alguns pitbulls (devidamente presos, mas latindo e uivando como Cérberos ensandecidos) e por um rapaz, que nos avisou de que o Dalminho só estaria à tarde. Que jeito? Só tomando umas...

Voltamos pelo mesmo caminho, rumo à orla do Rio Una, onde há alguns quiosques reconfortantes. Paramos num bar e pedimos uma geladíssima (a primeira do dia!)... Mal pusemos o “precioso veneno que embriaga as virgens” no copo e eis que aparece o bom e velho Thanos!

Da casa de Thanos e Simone
Thanos é um cara e tanto... Geólogo obcecado por areia (ele tem uma teoria sobre caçambas de areia que, confesso, não consegui entender, mas achei a coisa mais certa do mundo na ocasião – 19ª cerveja...) e fotógrafo de talento (pessoalmente, vi as suas fotos e achei-as realmente de excelência... e olha que sou bastante exigente), é casado com Simone, prima do nosso Mestre Vina. Claro, o Vina não tinha a menor idéia de que a prima estava morando em Valença... mas isso é normal: o Vina, tanto quanto eu, nunca tem a menor idéia do que acontece à sua volta... Exceto no que se refere a buggies, mulheres e cerveja.

O bom e velho Thanos nos convidou à sua casa, onde aconteciam os preparativos para o aniversário da sua filhinha. E lá fomos nós... No caminho, pudemos ver a nau capitânia que restou das comemorações dos 500 anos do Brasil. Fizemos questão de registrar em foto. Essa nave fora construída (com o dinheiro público, é claro), junto com outras duas, para os festejos ACMistas em Ilhéus, por ocasião da ridícula e ufanista farra do Descobrimento, mas nunca funcionou... Hoje, está ancorada à beira do Una, servindo de morada para morcegos e de leito para casais sem grana para o motel.

A nau capitânea...

A casa de Thanos e Simone fica no bairro do Tento – aparentemente, uma área recente de Valença. Fomos super bem recebidos pela Simone (que é geóloga, também). Tomamos algumas cervejas, mas resolvemos fazer um reconhecimento da área (até porquê sentimos que estávamos atrapalhando a confecção da festinha de aniversário). Saímos e viramos a esquina... Lá estava o santuário da cachaça em Valença, o Boteco do Walmir...

 
Na casa de Thanos
 

Do boteco do Walmir
Sabe aqueles lugares em que você entra e pode até sentir uma aura etílica? O Boteco do Walmir é assim... Nada além de uma porta, um balcão, dois bancos, meia dúzia de cartazes de aguardentes e calendários com imagens de mulheres seminuas. Lá nos fundos, algumas gaiolas com pássaros silvestres e muitas prateleiras de bebidas em infusão. O tipo de lugar em que qualquer um de nós se sentiria feliz. Papo bom, cerveja gelada e todas as novidades da cidade discorrendo aos nossos ouvidos. Evidentemente, metade do que ouvimos ou falamos foi consumida pelo álcool... Lembro com alguma nitidez de três episódios:

1. Quando estávamos com 15 cascos de cerveja ao pé do balcão, entrou um velhinho com ares de plebeu aristocrático, cumprimentou-nos a todos com uma reverência, e pediu “Jurubeba”... (para quem não conhece, é um mosto de vinho, misturado com uma frutícula amarga, chamada jurubeba). O Walmir trouxe duas garrafas de jurubeba da década de 60... (Vocês podem conferir na foto)... Cacete! Duvidei que o velho conseguisse ingerir aquilo, mas ele bebeu, elegantemente, duas talagadas e saiu cambaleante... Não sem antes fazer outra reverência de despedida. Olhei para o Vina e depois para a cerveja, como quem diz: “Se ele tomou, a gente também toma! Dane-se a cerveja!!!”... Péssima idéia... Bastou-nos uma dose de cachaça curada no cambuí e três doses de batida de amendoim (cuja procedência era a mais ignorada possível) para que o mundo à nossa volta se tornasse estranho e mágico como um filme do Alan Parker;

   
   

2. Quando estávamos com 19 cascos de cerveja sob o balcão, entrou o eminente Alexandre, um cara que trabalha num hotel em Morro de São Paulo... Vocês sabem que a grande irmandade da cachaça nos faz bater papos com desconhecidos como se fossem irmãos de sangue... Pois! O Vina e o Alexandre passaram a tecer considerações filosóficas sobre a vida e sobre o mercado hoteleiro da região... Eu, tonto feito boi de abate, só ouvia os “ismos” que os caras falavam... Resolvi ir ao banheiro... Para quem não sabe, tenho um medidor etílico: se conseguir urinar em algum lugar que não seja sobre o meu sapato, ainda estou sóbrio... Voltei com os sapatos na mão esquerda e com uma toalhinha, que encontrei por lá, na mão direita;

3. A certa altura, lá por volta do 25º casco, chegou um menino com uma bicicleta... Estacionou dentro do bar e pediu uma cerveja... Juro que senti o olho do Vina brilhar, quando ele viu a bike. Não resistiu e pediu “uma volta”... O menino, ingenuamente, ofereceu a bicicleta para o nosso querido Mestre... O primeiro sinal que pude perceber de que o Vina não estava bem para pilotar um veículo de duas rodas com tração humana foi o fato de ele ter tentado sair com a bicicleta pela minúscula janela do recinto... Enfim, alguém indicou a porta... O Vina saiu. Um silêncio sepulcral abateu-se sobre os que restaram... Todos mexendo-se nos bancos, querendo espiar a rua, mas constrangidos... ; Eu, sabendo do tamanho da merda que poderia acontecer, mas bêbado demais para me mover. Enfim, alguém foi atrás do Vina... E logo retornou, ajudando-o a trazer a bicicleta... pela mão... desmontado dela... (gargalhadas). O menino, dono do veículo, sequer acabou a sua cerveja... Mal teve a sua bike de volta, foi-se, balbuciando alguma desculpa inaudível.

Concluímos que devíamos partir... Já passavam das três da tarde e não havíamos comido nada, desde que chegamos à cidade. Despedimo-nos do grande Thanos e da Simpatia em pessoa, a Simone... Antes de sair do Tento, conseguimos fotografar mais um buggy, o Baby do Roberto.

Da Estranha História da Cozinheira
O episódio da cozinheira é mais um daqueles que só podem ser contados em baixa voz e longe das esposas e namoradas. Mas vou resumir, excluindo, evidentemente, as piores partes... Resolvemos almoçar... Encontramos uma birosca de um espanhol, que oferecia P.Fs. por R$ 4,00. A comida, ainda que barata, era de excelência e farta. Não podemos reclamar deste almoço, embora, devido ao nosso estado na ocasião, não possamos mais lembrar o que, exatamente, pedimos... Nem onde diabos fica o restaurante do velho espanhol... Recordo-me apenas o nome do bairro: “Bolívia”... hehehe.
Pois bem, lá estávamos eu e o Vina, tomando mais umas cervejinhas antes do almoço chegar, conversando sobre a vida, passando o tempo... De repente, saiu da cozinha uma senhora de meia-idade, com um avental pardo de tanta sujeira, cabelos desgrenhados, dentes apodrecidos... Putz! Eu não teria dado maior importância à figura, mas percebi que o Vina a olhava fixamente...
"O que foi, Vina?" - Perguntei.
"Cara, que mulherão!" - O Vina respondeu.
Eu procurei o tal mulherão por detrás da cozinheira, mas não havia ninguém. Então arrisquei, tentando me certificar: "Quem? A Cozinheira?"
"É... Vou lá queixar" (“Queixar” é assediar, aqui em Salvador)
Confesso que não entendi nada! O Vina estava tomando Aracy de Almeida por Bruna Lombardi!!! Aí me lembrei de algo que explicava o súbito encanto do mestre Vina pela cozinheira: havíamos ingerido alguns copos de cachaça curada e de batida de amendoim... O Mestre Vina acabou entrando num transe priâmico qualquer, onde enxergava uma beldade estonteante no lugar daquela criatura tosca... Tive que segurá-lo para que não fosse atrás da pobre mulher (afinal, eu queria almoçar; e ela, provavelmente, era quem fazia o rancho)...
Algumas horas depois, já no hotel, lembrei o fato ao Vina, e demos boas gargalhadas.

Do Hotel Valença
Esqueci de falar do Hotel! No trajeto entre a casa de Dalminho e a Orla do Una, antes de termos ido à casa do Thanos, paramos para arrumar um hotel. Escolhemos o Hotel Valença, sugestão de Verônica, uma aluna excepcional que tenho e que é nascida na cidade. Quanto ao hotel, nada demais tenho a dizer... Mas as negociações realizadas entre o Vina e a Dona Domingas, a nossa gentil anfitriã... Isso foi um capítulo à parte na nossa viagem!!!

Chegamos no hall do hotel, com a cara mais lavada do mundo, e paramos para assistir TV... Logo alguém veio nos “atender”, com medo de que se tratasse de dois vagabundos “filando” a televisão. Resolvemos acertar a estada, para irmos, o mais rapidamente possível, às cervejas. Fomos falar com a Dona Domingas, uma espécie de factotum do lugar.
Dona Domingas nos pediu R$ 25,00 por cada período de 24 horas. O Vina achou caro... Disse que éramos estudantes, fazendo um trabalho sobre a biodiversidade marinha da Costa do Dendê... e que estudante tem pouca grana e coisa & tal... Dona Domingas baixou o preço: ficou por R$ 20,00. O Vina ainda achou caro... Retrucou que o período era de baixa estação, e que os preços deveriam ser mais em conta... Dona Domingas sugeriu R$ 18,00; O Vina continuava achando caro, pediu para ver a lotação do hotel, disse que havia pouca hospedagem, etc... Dona Domingas, já suando em bicas, estipulou o preço final em R$ 15,00. Aí, o Mestre Vina lançou mão de um golpe baixo... Começou a contar uma estória de que a mãe havia empenhado as jóias na Caixa Econômica para ele fazer aquela viagem e passar na faculdade... Juro que foi comovente! Até eu, quase senti pena do safado...!!! Resultado: Dona Domingas nos abrigou por míseros R$ 10,00... E vocês pensam que o Vina se deu por satisfeito? Ele já ia abrir a boca para argumentar, mas eu intervi! Disse: “Ta bom, Dona Domingas, dez conto a gente pode pagar”... Gente, se eu deixasse aquilo continuar, a bondosa Dona Domingas terminaria nos dando alguma esmola! Agora entendo como o Vinícius conseguiu comprar um Valente 92... por R$ 2.500,00... (gargalhadas)

Do Bar do Josaphat e do "Flatulante Freguês"
No início da noite, voltamos à casa do Dalminho... Não o encontramos. Resolvemos, então, ir ao Bar do “Seu” Josaphat, no bairro do Amparo. Eu já havia estado nesse lugar, no início do ano, e jurei que voltaria. O Bar do Josaphat (“JosÁfas”, como a gente chama) é um boteco que começa com tijolos, na frente da rua, e termina com palafitas de madeira dispostas sobre um precipício. Localizado num dos pontos mais altos de Valença (um dos poucos onde não faz um calor absurdo), é simples e acolhedor. O Josaphat é um senhor de meia idade, com uma certa seriedade honrosa estampada nos olhos que faz com que qualquer um goste dele. Um bom homem, capaz de escutar alguém por horas seguidas, sem sequer demonstrar sinais de cansaço ou de tédio.

Comemos alguma coisa e nos deixamos ficar... Havia um grupo de rapazes que bebiam e conversavam animadamente, na mesa ao lado. Uns oito ou nove caras, não sei ao certo. Eu estava entretido com as bolhas que apareciam no meu copo de cerveja. Às vezes, quando a modorra deixava, comentava alguma coisa com o Vina. A atmosfera era de paz, como se houvéssemos atingido o Nirvana etílico da coisa (barriga cheia, cansaço nas pernas e cerveja gelada descendo pela goela).
De repente, o ambiente foi tomado por um cheiro horrendo de pum! Alguém soltara gases nauseabundos, como se os portões do Inferno se escancarassem e deixassem escapar a terrível e pestilenta inhaca de enxofre que antecede os seus habitantes! Oh! Foi um tal de fugir para a rua que nem queiram saber... Até eu sai da minha meditação com as bolhas da cerveja...! Quando passou, os caras da mesa ao lado voltaram e começaram a se acusar, entre si. Houve alguma balbúrdia, mas novamente a paz reinou...

Vinte minutos depois, outro pum bombástico! Nova correria, seguida de novas acusações... Todos atribuíam a todos a autoria da infame façanha! E todos a negavam, evidentemente. E houve um terceiro pum, e um quarto, e um quinto... Putz! A essa altura, a minha meditação já tinha ido para o espaço! Eu só esperava o próximo pum, para dar boas gargalhadas com a agonia do pessoal da mesa ao lado. Mas reparei no sorriso maroto que o Vina exibia... Era ele!!! A comida da sua musa, a Cozinheira, fizera efeito, e o Vina estava causando todo aquele rebuliço, gozando anonimamente os seus méritos!

     
     

Mais tarde, quando a sagrada irmandade da cachaça nos fez conhecer a galera da mesa ao lado, o Vina confessou a autoria dos puns. No meio desse povo que compunha a mesa ao lado, estava o Franco, um grande brother, que nos indicou um lugar de elevadíssimo nível, o “Sonrisal”... Saindo do Josafas, fotografamos um fusquete conversível! Yeah! Isso mesmo, um VW Sedan, com teto de lona... Tinha Santo Antônio e tudo mais! Não pudemos encontrar o dono para saber maiores detalhes sobre o carro, mas as fotos falam por si mesmas...

   
   

Do Sonrisal
Essa parte da história não pode ser contada, aqui no Planeta. Afinal, abordar as aventuras de dois buggeiros baianos numa “casa de tolerância” não é, propriamente, um tema que se sugira num site onde crianças costumam transitar. Talvez em outra oportunidade voltemos ao judicioso assunto (no esperado Encontro Nacional de Buggies do Planeta, quem sabe...?). Posso adiantar que não levamos ninguém para os quartíbulos... Estávamos lá para piorar tudo, mas não para ter sexo pago... Pagar por sexo é uma humilhação entre os baianos... (Ademais, esse texto terá que passar pela censura da minha rádio-patroa... hehehe).

Da insólita aventura na Cozinha do Inferno e de como nos tornamos “Sargentos de polícia”
Retornando do Sonrisal, lá pelas tantas da Madrugada, e resolvemos tomar a “saideira”, na Orla do Una. Ao atravessamos a ponte, vimos um rebuliço num casarão (não sei o nome do lugar, mas é um casarão verde, em estilo colonial português, que fica em frente ao terminal de saída das balsas que fazem a linha Valença-Morro de São Paulo). Um bolerão tocando num dos cômodos da casa (som de teclado, para que pior? Hehehe), um aglomerado de gente na porta, algumas barracas de hot-dog, batata-frita e “Capeta” (uma bebida feita com Vodka e Nescau, que tem sido a sensação dos verões daqui), na frente do lugar. Eu disse pro Vina: “Aí tem festa, vamo lá?”... ... ... Outra péssima idéia!

O lugar era guardado por seguranças simiescos... Verdadeiros orangotangos. Tentamos entrar, mas descobrimos que era preciso pagar R$ 2,00 por cabeça. A quantia é pouca, eu sei, mas pesando custos e benefícios, achamos melhor ficarmos de fora... (Dá pra imaginar a seleção de público que R$ 2,00 fazem?). Resolvemos tomar um “Capeta” na barraca de uma senhora que lá estava. Enquanto a velha (espevitadíssima, com o Vina) fazia o drink, começamos a conversar... A certa altura, ela perguntou: “Vocês querem entrar de graça?”. Não queríamos, mas respondemos que sim. A Velhinha (que mais tarde, batizaríamos de “A Tia do Capeta” – literalmente...) foi até os seguranças, conversou um pouco, gesticulou um bocado e apontou para nós dois... E nos chamou, com um aceno de mão.

Entramos, sem entender o que havia acontecido. Lá dentro, “o pau comia”! A música era ensurdecedora, gente bêbada ziguezagueava à nossa frente, casais dançavam e namoravam no escuro, brigas pipocavam por todos os lados, belas ninfetas nos olhavam cobiçosas (juro por Deus que uma menina passou a mão na minha bunda!!! Pode?!!! Logo eu, um sujeito gordo e respeitável!!! Gargalhadas) e os garotões, cheios de hormônios... Esses, que normalmente hostilizariam a quaisquer estranhos que aparecessem no seu território, olhavam-nos, a mim e ao Vina, com um certo respeito... Estranho... Mas não atinei com o motivo. Esperava que, a qualquer momento, algum menino imberbe me “tombasse” com o ombro (coisa absolutamente normal, nessa idade), mas eles abriam passagem para nós...

Encostei num canto e fiquei observando o ambiente. Realmente, estava pouco à vontade naquele lugar... Era muita confusão para o meu gosto. O Vina nem parecia... Foi buscar cerveja, puxou papo com uma moça, dançou, conversou com o pessoal de uma mesa... A certa altura (quatro ou quatro ou meia da manhã), conhecemos umas meninas gente boa, que passaram a papear animadamente conosco. Eu já estava um pouco mais ambientado, mas ainda me sentia como um estranho no ninho. Foram essas meninas, cujos nomes não me recordo (há uma estranha ligação entre álcool e amnésia, que a Ciência Moderna ainda não entende muito bem...), que nos elucidaram o mistério de estarmos vivos e inteiros, depois de algumas horas em plena “Cozinha do Inferno” (nome pelo qual batizamos o casarão verde)... De fato, dois sujeitos desconhecidos transitando por um bar de uma cidade do interior é um prato cheio para os valentões embriagados de plantão.

Mas o causo foi o seguinte: Sabem a “Tia do Capeta”? Aquela que nos botou para dentro da festa... Pois! Para nos deixar entrar de graça, ela disse aos seguranças que éramos policiais... Por isso, passamos com tanta facilidade... Por isso, os caras da festa não mexiam com a gente... Por isso, as moçoilas estavam tão assanhadas... Eu e o Vina não tínhamos a menor idéia do que nos tornamos (gargalhadas). Só o soubemos, quando as meninas perguntaram do nosso posto e do nosso batalhão!!! O Vina, entendendo o que acontecera, respondeu prontamente que éramos sargentos lotados num quartel lá que não me recordo agora! (gargalhadas). O pior é que, quando descobrimos que viramos policiais, passamos a evitar as patrulhas que faziam ronda pela madrugada, na cidade... Tivemos que nos esconder de uns 10 policiais, no caminho entre a Cozinha do Inferno e o nosso hotel... Já pensaram se algum policial nos pergunta sobre as nossas patentes? Íamos responder o que? (gargalhadas). Cidade pequena, sabem como é, né? Todo mundo fica sabendo de tudo na mesma hora... (gargalhadas)
No hotel, antes de dormir, pesamos o acontecido... O último comentário do Vina sintetiza o nosso estado de espírito (sono, fome, susto e cachaça na cabeça): “Alf, é possível que alguém no mundo acredite que nós, com essas caras limpas, sejamos policiais?!” Gente boa, vocês não estavam lá para ver o tamanho do buraco em que nos metemos!!! (Gargalhadas). Poderíamos ter sido presos por assumir falsas identidades! Mas a culpa não foi nossa... Hehehe.

Da volta
Dormimos com o dia claro e às 7:00 horas estávamos já de pé. Era manhã de um domingo alegre, de um céu azul e de uma modorra cálida. A Dona Domingas, ainda com pena do Vina (o pobre estudante que tinha que se formar para resgatar as jóias da mãe na Caixa Econômica Federal... Gargalhadas), preparou-nos um café de reis! Foi buscar pão quentinho para a gente! Fechamos a conta no hotel e resolvemos ir para Morro de São Paulo.

Chegamos ao cais onde se toma a balsa para Morro, às 8:15. Tinha acabado de sair uma catraia... A próxima, só nove e meia. Pensamos no que fazer... O sono era terrível! Chegamos à conclusão de que era melhor tomarmos o ônibus até a Ilha de Itaparica. Praia por praia, era melhor estar perto de casa. E assim rumamos para a rodoviária. Tomamos o ônibus das nove. Chegamos em Bom Despacho por volta das doze e meia. Não queríamos ir direto para Salvador, afinal, era domingo! Resolvemos dar um pulo em Amoreiras, localidade da Ilha onde eu tenho uma casinha. Passamos a tarde em Amoreiras e regressamos para Salvador. Quase não ficávamos em pé de tanto sono...

   
   

Meus amigos, buggymaníacos do Planeta, essa viagem até Valença foi coisa de maluco! Querem saber o que é “talento para o que não presta”? Imaginem dois caras programarem um passeio tranqüilo, com um objetivo simples (afinal, iríamos a uma cidade próxima, apenas para tomar umas cervejas e fotografar um buggy – do Dalminho, o qual aliás não fotografamos de forma alguma... Hehehe). Nada mais seguro e ingênuo do que isso, correto? Acabamos por reviver um pedaço da Odisséia do Homero! (gargalhadas). Afinal, Coisas convencionais acontecem com pessoas convencionais... E nós somos o Alf e o Vina!!! (gargalhadas).

 
"Gambá na pista"

A próxima missão já está marcada. Em junho, levaremos a cultura buggeira até a cidade de Valente, sertão da Bahia, onde era fabricado, até 1993, um buggy que levava o mesmo nome da cidade. O convite está aberto a todos... Mas aconselho: façam seguro de vida antes, porque para andar com o Vina... (gargalhadas)

Abração,

Alf

 
 

Planeta Buggy - Apoiando buggueiros de todos os cantos do Brasil, desde 1999