Alô,
buggymaníacos do Planeta!!!
É
o seguinte: vou tentar relatar da nossa missão de levar
a cultura buggeira até os confins do nosso Estado... Eu
e o Vina estivemos recentemente em Valença, na Costa do
Dendê, Bahia, onde vivenciamos episódios inusitados
(surreais, para ser honesto), que merecem ser contados numa mesa
de bar, depois da 20ª ou da 21ª cerveja. Evidentemente,
nem tudo pelo que passamos poderá ser dito aqui, no nosso
site... Afinal, há crianças que freqüentam
o Planeta Buggy!!! (risos)
Da
Cidade
Tudo começou em fevereiro, quando fui passear com Ciça,
a minha rádio-patroa, em Valença. Confesso que me
apaixonei pela cidade... Já havia estado em Valença,
mas nunca permanecido... Sempre usava Valença como meio
de chegar a Morro de São Paulo, ou a Gamboa (dois dos maiores
pólos do turismo baiano), porém nunca pensei nessa
encantadora cidade como um ponto de estada. Bastou-me apenas uma
semana para render-me ao seu charme...
Valença
é uma cidade colonial de médio porte, situada no
sul da Bahia. Com um passado riquíssimo e repleto de mistérios
e augúrios; e um futuro promissor, ancorado na pesca, no
turismo, no comércio e, sobretudo, na criação
de animais – bovinos, asininos, muares e suínos (fenômeno
relativamente recente e que vem suplantando, pouco a pouco, as
tradicionais culturas de dendê, licurí e guaraná)...
Segundo
o meu queridíssimo amigo Luiz Rafael Aroeira da Silva,
historiador e pedagogo, nascido e criado na Ilha de Itaparica
(e formado tanto nas acadêmicas cadeiras da Universidade
Federal da Bahia, quanto nos terreiros de Candomblé de
Egun da sua terra), em épocas do Descobrimento, essa região,
que hoje compreende desde Nazaré das Farinhas até
Nilo Peçanha, passando por todo o Arquipélago de
Tinharé, era habitada por índios Tupi, Tupiniquim
e Tapuia. Os portugueses tiveram bastante trabalho para invadir
essas terras, pois os nativos eram ferozes e altivos.
Durante o período colonial, o sítio onde fincou-se
Valença, por ordem de Dom João III, Rei de Portugal,
pertenceu à Capitania de São Jorge dos Ilhéus.
Em 1571, foi oficialmente fundada a “Villa de Nova Vallença
do Santíssimo Coração de Jesus”, habitada,
principalmente, por indígenas, já apaziguados. Apenas
em 1849, já no período republicano do nosso país,
Valença seria alçada à condição
de município, sob o nome de “Industrial Cidade de
Valença”.
Com toda essa trajetória, não é de se estranhar
que a cidade possua um belíssimo patrimônio arquitetônico.
Pessoalmente, sou encantado pelos sobrados que estão dispostos
ao longo da orla do Rio Una. À noite, da margem esquerda,
Valença parece saída de alguma pintura distante,
de algum recôncavo secular da minha Bahia amada... O Vina
a achou perecida com Aracaju; eu não sei... Valença
consegue ter uma personalidade forte o suficiente para impedir
as inevitáveis comparações.
No mais, para não alongar mais a história e para
entrar de vez na nossa doida incursão (risos), resta dizer
que Valença possui também um inestimável
patrimônio ecológico. Imensas extensões de
manguezais perpassam a orla da cidade, constituindo-se (para usar
o clichê mais convencional que os ecólogos conhecem
– hehehe – num “berçário natural
para várias espécies de peixes, crustáceos
e moluscos”). Tem mata atlântica também...
e praias desertas...
Da
ida
Mas agora passemos à nossa ida a Valença. Saímos
de Salvador, às 7:00 horas da manhã, do dia 12 de
abril de 2003, através do Terminal Marítimo de São
Joaquim, com destino a Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, onde
tomaríamos um ônibus até Valença. No
terminal, eu, com um profundo mau-humor (sempre fico de mau-humor
quando acordo cedo demais, aos sábados... risos), consegui
comprar briga com o dono da única padaria que poderia me
oferecer um desjejum adequado. Pedi um café preto e amargo,
e o cão danado começou a desenvolver uma lista de
possíveis doenças que o hábito de tomar café
de estômago vazio provoca. Aquilo foi demais! Depois de
quase mandá-lo de volta à sua genitora, sai sem
o meu café... Tanto pior para mim... (risos). O Vina, quando
chegou, foi direto à tal padaria... Comeu e bebeu do que
quis, e ainda passou uma cantada na atendente... Pode um cara
desse existir? (gargalhadas).
Enfim, tomamos o Ferry Boat e chegamos em Bom Despacho
(No caminho, fizemos as fotos do Bird
do Josué). A viagem de ônibus foi longa e cansativa,
nenhuma paradinha para um cigarro... Putz! Passamos a Ponte do
Funil, saindo da Ilha, e seguimos por continente... Logo havíamos
deixado Nazaré das Farinhas na poeira e pegamos a BA-887,
direto para Valença. Fui papeando com o Vina e olhando
a paisagem: dendezeiro atrás de dendezeiro... Parei de
contar no dendezeiro de número 1.622.048...
Chegamos a Valença com o sol a pino. A entrada da cidade
não é a coisa mais bela que há... Por incrível
que pareça, Valença, linda e glamourosa, no seu
porte de princesa, possui uma via de acesso horrorosa como o Subúrbio
Ferroviário de Salvador. Mas chegamos. E fomos direto para
a casa de Dalminho, um cara que tem um BRM amarelo, com estampas
de uma clínica veterinária.
Dos
Motivos
Preciso dizer que o motivo (ou a desculpa... risos) de termos
ido a Valença foi esse buggy de Dalminho. Quando estive
com Ciça na cidade, no início do ano, vi o BRM do
cara e achei interessante o fato de alguém usar um buggy
para conduzir cães (será que amarra as coleiras
dos bichos no Santo Antônio?). Ao que parece, Dalminho,
além de Vet é também criador de Pitbull.
Olha só, já vi buggy de todo feitio e nas mais insólitas
circunstâncias: desde carregando material de construção
e puxado por jumento (aquele famoso episódio em Santo Antônio
de Jesus, que relatei no fórum) até buggy de empresa
de segurança, aqui em Salvador, repleto de guardas armados
até os dentes. Mas levando cachorro... Isso é inusitado!
Falando com o Vina, resolvemos fazer uma pausa nessa loucura urbana
que é SSA e ir atrás dessas cervej... Digo, dessas
fotos tão especiais... Hehehe. Convencemos Cicília
de que a nossa viagem era por uma boa causa, afinal, essa contribuição
seria inestimável para o Planeta Buggy!!! A Ciça
concordou – não sem antes nos lançar aquele
olhar apertado e ladeado de quem pensa: “sei que história
mal contada é essa...”. De forma que fomos. E o motivo
oficial da nossa visita à cidade era o BRM do Dalminho
(o qual, diga-se, não fotografamos... hehehe).
Da
casa do Dalminho
Suando feito dois condenados, chegamos à casa do Dalminho.
Ofegantes, por conta de uma ladeira... Desanimados por falta de
cerveja e excesso de sol. Fomos recebidos por alguns pitbulls
(devidamente presos, mas latindo e uivando como Cérberos
ensandecidos) e por um rapaz, que nos avisou de que o Dalminho
só estaria à tarde. Que jeito? Só tomando
umas...
Voltamos pelo mesmo caminho, rumo à orla do Rio Una, onde
há alguns quiosques reconfortantes. Paramos num bar e pedimos
uma geladíssima (a primeira do dia!)... Mal pusemos o “precioso
veneno que embriaga as virgens” no copo e eis que aparece
o bom e velho Thanos!
Da
casa de Thanos e Simone
Thanos é um cara e tanto... Geólogo obcecado por
areia (ele tem uma teoria sobre caçambas de areia que,
confesso, não consegui entender, mas achei a coisa mais
certa do mundo na ocasião – 19ª cerveja...)
e fotógrafo de talento (pessoalmente, vi as suas fotos
e achei-as realmente de excelência... e olha que sou bastante
exigente), é casado com Simone, prima do nosso Mestre Vina.
Claro, o Vina não tinha a menor idéia de que a prima
estava morando em Valença... mas isso é normal:
o Vina, tanto quanto eu, nunca tem a menor idéia do que
acontece à sua volta... Exceto no que se refere a buggies,
mulheres e cerveja.
O bom e velho Thanos nos convidou à sua casa, onde aconteciam
os preparativos para o aniversário da sua filhinha. E lá
fomos nós... No caminho, pudemos ver a nau capitânia
que restou das comemorações dos 500 anos do Brasil.
Fizemos questão de registrar em foto. Essa nave fora construída
(com o dinheiro público, é claro), junto com outras
duas, para os festejos ACMistas em Ilhéus, por ocasião
da ridícula e ufanista farra do Descobrimento, mas nunca
funcionou... Hoje, está ancorada à beira do Una,
servindo de morada para morcegos e de leito para casais sem grana
para o motel.
A casa de Thanos e Simone fica no bairro do Tento – aparentemente,
uma área recente de Valença. Fomos super bem recebidos
pela Simone (que é geóloga, também). Tomamos
algumas cervejas, mas resolvemos fazer um reconhecimento da área
(até porquê sentimos que estávamos atrapalhando
a confecção da festinha de aniversário).
Saímos e viramos a esquina... Lá estava o santuário
da cachaça em Valença, o Boteco do Walmir...
Do
boteco do Walmir
Sabe aqueles lugares em que você entra e pode até
sentir uma aura etílica? O Boteco do Walmir é assim...
Nada além de uma porta, um balcão, dois bancos,
meia dúzia de cartazes de aguardentes e calendários
com imagens de mulheres seminuas. Lá nos fundos, algumas
gaiolas com pássaros silvestres e muitas prateleiras de
bebidas em infusão. O tipo de lugar em que qualquer um
de nós se sentiria feliz. Papo bom, cerveja gelada e todas
as novidades da cidade discorrendo aos nossos ouvidos. Evidentemente,
metade do que ouvimos ou falamos foi consumida pelo álcool...
Lembro com alguma nitidez de três episódios:
1.
Quando estávamos com 15 cascos de cerveja ao pé
do balcão, entrou um velhinho com ares de plebeu aristocrático,
cumprimentou-nos a todos com uma reverência, e pediu “Jurubeba”...
(para quem não conhece, é um mosto de vinho, misturado
com uma frutícula amarga, chamada jurubeba). O Walmir trouxe
duas garrafas de jurubeba da década de 60... (Vocês
podem conferir na foto)... Cacete! Duvidei que o velho conseguisse
ingerir aquilo, mas ele bebeu, elegantemente, duas talagadas e
saiu cambaleante... Não sem antes fazer outra reverência
de despedida. Olhei para o Vina e depois para a cerveja, como
quem diz: “Se ele tomou, a gente também toma! Dane-se
a cerveja!!!”... Péssima idéia... Bastou-nos
uma dose de cachaça curada no cambuí e três
doses de batida de amendoim (cuja procedência era a mais
ignorada possível) para que o mundo à nossa volta
se tornasse estranho e mágico como um filme do Alan Parker;
2. Quando estávamos com 19 cascos de cerveja sob o balcão,
entrou o eminente Alexandre, um cara que trabalha num hotel em
Morro de São Paulo... Vocês sabem que a grande irmandade
da cachaça nos faz bater papos com desconhecidos como se
fossem irmãos de sangue... Pois! O Vina e o Alexandre passaram
a tecer considerações filosóficas sobre a
vida e sobre o mercado hoteleiro da região... Eu, tonto
feito boi de abate, só ouvia os “ismos” que
os caras falavam... Resolvi ir ao banheiro... Para quem não
sabe, tenho um medidor etílico: se conseguir urinar em
algum lugar que não seja sobre o meu sapato, ainda estou
sóbrio... Voltei com os sapatos na mão esquerda
e com uma toalhinha, que encontrei por lá, na mão
direita;
3. A certa altura, lá por volta do 25º casco, chegou
um menino com uma bicicleta... Estacionou dentro do bar e pediu
uma cerveja... Juro que senti o olho do Vina brilhar, quando ele
viu a bike. Não resistiu e pediu “uma volta”...
O menino, ingenuamente, ofereceu a bicicleta para o nosso querido
Mestre... O primeiro sinal que pude perceber de que o Vina não
estava bem para pilotar um veículo de duas rodas com tração
humana foi o fato de ele ter tentado sair com a bicicleta pela
minúscula janela do recinto... Enfim, alguém indicou
a porta... O Vina saiu. Um silêncio sepulcral abateu-se
sobre os que restaram... Todos mexendo-se nos bancos, querendo
espiar a rua, mas constrangidos... ; Eu, sabendo do tamanho da
merda que poderia acontecer, mas bêbado demais para me mover.
Enfim, alguém foi atrás do Vina... E logo retornou,
ajudando-o a trazer a bicicleta... pela mão... desmontado
dela... (gargalhadas). O menino, dono do veículo, sequer
acabou a sua cerveja... Mal teve a sua bike de volta, foi-se,
balbuciando alguma desculpa inaudível.
Concluímos que devíamos partir... Já passavam
das três da tarde e não havíamos comido nada,
desde que chegamos à cidade. Despedimo-nos do grande Thanos
e da Simpatia em pessoa, a Simone... Antes de sair do Tento, conseguimos
fotografar mais um buggy, o
Baby do Roberto.
Da
Estranha História da Cozinheira
O episódio da cozinheira é mais um daqueles que
só podem ser contados em baixa voz e longe das esposas
e namoradas. Mas vou resumir, excluindo, evidentemente, as piores
partes... Resolvemos almoçar... Encontramos uma birosca
de um espanhol, que oferecia P.Fs. por R$ 4,00. A comida, ainda
que barata, era de excelência e farta. Não podemos
reclamar deste almoço, embora, devido ao nosso estado na
ocasião, não possamos mais lembrar o que, exatamente,
pedimos... Nem onde diabos fica o restaurante do velho espanhol...
Recordo-me apenas o nome do bairro: “Bolívia”...
hehehe.
Pois bem, lá estávamos eu e o Vina, tomando mais
umas cervejinhas antes do almoço chegar, conversando sobre
a vida, passando o tempo... De repente, saiu da cozinha uma senhora
de meia-idade, com um avental pardo de tanta sujeira, cabelos
desgrenhados, dentes apodrecidos... Putz! Eu não teria
dado maior importância à figura, mas percebi que
o Vina a olhava fixamente...
"O que foi, Vina?" - Perguntei.
"Cara, que mulherão!" - O Vina respondeu.
Eu procurei o tal mulherão por detrás da cozinheira,
mas não havia ninguém. Então arrisquei, tentando
me certificar: "Quem? A Cozinheira?"
"É... Vou lá queixar" (“Queixar”
é assediar, aqui em Salvador)
Confesso que não entendi nada! O Vina estava tomando Aracy
de Almeida por Bruna Lombardi!!! Aí me lembrei de algo
que explicava o súbito encanto do mestre Vina pela cozinheira:
havíamos ingerido alguns copos de cachaça curada
e de batida de amendoim... O Mestre Vina acabou entrando num transe
priâmico qualquer, onde enxergava uma beldade estonteante
no lugar daquela criatura tosca... Tive que segurá-lo para
que não fosse atrás da pobre mulher (afinal, eu
queria almoçar; e ela, provavelmente, era quem fazia o
rancho)...
Algumas horas depois, já no hotel, lembrei o fato ao Vina,
e demos boas gargalhadas.
Do
Hotel Valença
Esqueci de falar do Hotel! No trajeto entre a casa de Dalminho
e a Orla do Una, antes de termos ido à casa do Thanos,
paramos para arrumar um hotel. Escolhemos o Hotel Valença,
sugestão de Verônica, uma aluna excepcional que tenho
e que é nascida na cidade. Quanto ao hotel, nada demais
tenho a dizer... Mas as negociações realizadas entre
o Vina e a Dona Domingas, a nossa gentil anfitriã... Isso
foi um capítulo à parte na nossa viagem!!!
Chegamos no hall do hotel, com a cara mais lavada do mundo, e
paramos para assistir TV... Logo alguém veio nos “atender”,
com medo de que se tratasse de dois vagabundos “filando”
a televisão. Resolvemos acertar a estada, para irmos, o
mais rapidamente possível, às cervejas. Fomos falar
com a Dona Domingas, uma espécie de factotum do lugar.
Dona Domingas nos pediu R$ 25,00 por cada período de 24
horas. O Vina achou caro... Disse que éramos estudantes,
fazendo um trabalho sobre a biodiversidade marinha da Costa do
Dendê... e que estudante tem pouca grana e coisa & tal...
Dona Domingas baixou o preço: ficou por R$ 20,00. O Vina
ainda achou caro... Retrucou que o período era de baixa
estação, e que os preços deveriam ser mais
em conta... Dona Domingas sugeriu R$ 18,00; O Vina continuava
achando caro, pediu para ver a lotação do hotel,
disse que havia pouca hospedagem, etc... Dona Domingas, já
suando em bicas, estipulou o preço final em R$ 15,00. Aí,
o Mestre Vina lançou mão de um golpe baixo... Começou
a contar uma estória de que a mãe havia empenhado
as jóias na Caixa Econômica para ele fazer aquela
viagem e passar na faculdade... Juro que foi comovente! Até
eu, quase senti pena do safado...!!! Resultado: Dona Domingas
nos abrigou por míseros R$ 10,00... E vocês pensam
que o Vina se deu por satisfeito? Ele já ia abrir a boca
para argumentar, mas eu intervi! Disse: “Ta bom, Dona Domingas,
dez conto a gente pode pagar”... Gente, se eu deixasse aquilo
continuar, a bondosa Dona Domingas terminaria nos dando alguma
esmola! Agora entendo como o Vinícius conseguiu comprar
um Valente 92... por R$ 2.500,00... (gargalhadas)
Do
Bar do Josaphat e do "Flatulante Freguês"
No início da noite, voltamos à casa do Dalminho...
Não o encontramos. Resolvemos, então, ir ao Bar
do “Seu” Josaphat, no bairro do Amparo. Eu já
havia estado nesse lugar, no início do ano, e jurei que
voltaria. O Bar do Josaphat (“JosÁfas”, como
a gente chama) é um boteco que começa com tijolos,
na frente da rua, e termina com palafitas de madeira dispostas
sobre um precipício. Localizado num dos pontos mais altos
de Valença (um dos poucos onde não faz um calor
absurdo), é simples e acolhedor. O Josaphat é um
senhor de meia idade, com uma certa seriedade honrosa estampada
nos olhos que faz com que qualquer um goste dele. Um bom homem,
capaz de escutar alguém por horas seguidas, sem sequer
demonstrar sinais de cansaço ou de tédio.
Comemos alguma coisa e nos deixamos ficar... Havia um grupo de
rapazes que bebiam e conversavam animadamente, na mesa ao lado.
Uns oito ou nove caras, não sei ao certo. Eu estava entretido
com as bolhas que apareciam no meu copo de cerveja. Às
vezes, quando a modorra deixava, comentava alguma coisa com o
Vina. A atmosfera era de paz, como se houvéssemos atingido
o Nirvana etílico da coisa (barriga cheia, cansaço
nas pernas e cerveja gelada descendo pela goela).
De repente, o ambiente foi tomado por um cheiro horrendo de pum!
Alguém soltara gases nauseabundos, como se os portões
do Inferno se escancarassem e deixassem escapar a terrível
e pestilenta inhaca de enxofre que antecede os seus habitantes!
Oh! Foi um tal de fugir para a rua que nem queiram saber... Até
eu sai da minha meditação com as bolhas da cerveja...!
Quando passou, os caras da mesa ao lado voltaram e começaram
a se acusar, entre si. Houve alguma balbúrdia, mas novamente
a paz reinou...
Vinte minutos depois, outro pum bombástico! Nova correria,
seguida de novas acusações... Todos atribuíam
a todos a autoria da infame façanha! E todos a negavam,
evidentemente. E houve um terceiro pum, e um quarto, e um quinto...
Putz! A essa altura, a minha meditação já
tinha ido para o espaço! Eu só esperava o próximo
pum, para dar boas gargalhadas com a agonia do pessoal da mesa
ao lado. Mas reparei no sorriso maroto que o Vina exibia... Era
ele!!! A comida da sua musa, a Cozinheira, fizera efeito, e o
Vina estava causando todo aquele rebuliço, gozando anonimamente
os seus méritos!
Mais
tarde, quando a sagrada irmandade da cachaça nos fez conhecer
a galera da mesa ao lado, o Vina confessou a autoria dos puns.
No meio desse povo que compunha a mesa ao lado, estava o Franco,
um grande brother, que nos indicou um lugar de elevadíssimo
nível, o “Sonrisal”... Saindo do Josafas, fotografamos
um fusquete conversível! Yeah! Isso mesmo, um VW Sedan,
com teto de lona... Tinha Santo Antônio e tudo mais! Não
pudemos encontrar o dono para saber maiores detalhes sobre o carro,
mas as fotos falam por si mesmas...
Do
Sonrisal
Essa parte da história não pode ser contada, aqui
no Planeta. Afinal, abordar as aventuras de dois buggeiros baianos
numa “casa de tolerância” não é,
propriamente, um tema que se sugira num site onde crianças
costumam transitar. Talvez em outra oportunidade voltemos ao judicioso
assunto (no esperado Encontro Nacional de Buggies do Planeta,
quem sabe...?). Posso adiantar que não levamos ninguém
para os quartíbulos... Estávamos lá para
piorar tudo, mas não para ter sexo pago... Pagar por sexo
é uma humilhação entre os baianos... (Ademais,
esse texto terá que passar pela censura da minha rádio-patroa...
hehehe).
Da
insólita aventura na Cozinha do Inferno e de como nos tornamos
“Sargentos de polícia”
Retornando do Sonrisal, lá pelas tantas da Madrugada, e
resolvemos tomar a “saideira”, na Orla do Una. Ao
atravessamos a ponte, vimos um rebuliço num casarão
(não sei o nome do lugar, mas é um casarão
verde, em estilo colonial português, que fica em frente
ao terminal de saída das balsas que fazem a linha Valença-Morro
de São Paulo). Um bolerão tocando num dos cômodos
da casa (som de teclado, para que pior? Hehehe), um aglomerado
de gente na porta, algumas barracas de hot-dog, batata-frita e
“Capeta” (uma bebida feita com Vodka e Nescau, que
tem sido a sensação dos verões daqui), na
frente do lugar. Eu disse pro Vina: “Aí tem festa,
vamo lá?”... ... ... Outra péssima idéia!
O lugar era guardado por seguranças simiescos... Verdadeiros
orangotangos. Tentamos entrar, mas descobrimos que era preciso
pagar R$ 2,00 por cabeça. A quantia é pouca, eu
sei, mas pesando custos e benefícios, achamos melhor ficarmos
de fora... (Dá pra imaginar a seleção de
público que R$ 2,00 fazem?). Resolvemos tomar um “Capeta”
na barraca de uma senhora que lá estava. Enquanto a velha
(espevitadíssima, com o Vina) fazia o drink, começamos
a conversar... A certa altura, ela perguntou: “Vocês
querem entrar de graça?”. Não queríamos,
mas respondemos que sim. A Velhinha (que mais tarde, batizaríamos
de “A Tia do Capeta” – literalmente...) foi
até os seguranças, conversou um pouco, gesticulou
um bocado e apontou para nós dois... E nos chamou, com
um aceno de mão.
Entramos,
sem entender o que havia acontecido. Lá dentro, “o
pau comia”! A música era ensurdecedora, gente bêbada
ziguezagueava à nossa frente, casais dançavam e
namoravam no escuro, brigas pipocavam por todos os lados, belas
ninfetas nos olhavam cobiçosas (juro por Deus que uma menina
passou a mão na minha bunda!!! Pode?!!! Logo eu, um sujeito
gordo e respeitável!!! Gargalhadas) e os garotões,
cheios de hormônios... Esses, que normalmente hostilizariam
a quaisquer estranhos que aparecessem no seu território,
olhavam-nos, a mim e ao Vina, com um certo respeito... Estranho...
Mas não atinei com o motivo. Esperava que, a qualquer momento,
algum menino imberbe me “tombasse” com o ombro (coisa
absolutamente normal, nessa idade), mas eles abriam passagem para
nós...
Encostei num canto e fiquei observando o ambiente. Realmente,
estava pouco à vontade naquele lugar... Era muita confusão
para o meu gosto. O Vina nem parecia... Foi buscar cerveja, puxou
papo com uma moça, dançou, conversou com o pessoal
de uma mesa... A certa altura (quatro ou quatro ou meia da manhã),
conhecemos umas meninas gente boa, que passaram a papear animadamente
conosco. Eu já estava um pouco mais ambientado, mas ainda
me sentia como um estranho no ninho. Foram essas meninas, cujos
nomes não me recordo (há uma estranha ligação
entre álcool e amnésia, que a Ciência Moderna
ainda não entende muito bem...), que nos elucidaram o mistério
de estarmos vivos e inteiros, depois de algumas horas em plena
“Cozinha do Inferno” (nome pelo qual batizamos o casarão
verde)... De fato, dois sujeitos desconhecidos transitando por
um bar de uma cidade do interior é um prato cheio para
os valentões embriagados de plantão.
Mas o causo foi o seguinte: Sabem a “Tia do Capeta”?
Aquela que nos botou para dentro da festa... Pois! Para nos deixar
entrar de graça, ela disse aos seguranças que éramos
policiais... Por isso, passamos com tanta facilidade... Por isso,
os caras da festa não mexiam com a gente... Por isso, as
moçoilas estavam tão assanhadas... Eu e o Vina não
tínhamos a menor idéia do que nos tornamos (gargalhadas).
Só o soubemos, quando as meninas perguntaram do nosso posto
e do nosso batalhão!!! O Vina, entendendo o que acontecera,
respondeu prontamente que éramos sargentos lotados num
quartel lá que não me recordo agora! (gargalhadas).
O pior é que, quando descobrimos que viramos policiais,
passamos a evitar as patrulhas que faziam ronda pela madrugada,
na cidade... Tivemos que nos esconder de uns 10 policiais, no
caminho entre a Cozinha do Inferno e o nosso hotel... Já
pensaram se algum policial nos pergunta sobre as nossas patentes?
Íamos responder o que? (gargalhadas). Cidade pequena, sabem
como é, né? Todo mundo fica sabendo de tudo na mesma
hora... (gargalhadas)
No hotel, antes de dormir, pesamos o acontecido... O último
comentário do Vina sintetiza o nosso estado de espírito
(sono, fome, susto e cachaça na cabeça): “Alf,
é possível que alguém no mundo acredite que
nós, com essas caras limpas, sejamos policiais?!”
Gente boa, vocês não estavam lá para ver o
tamanho do buraco em que nos metemos!!! (Gargalhadas). Poderíamos
ter sido presos por assumir falsas identidades! Mas a culpa não
foi nossa... Hehehe.
Da
volta
Dormimos com o dia claro e às 7:00 horas estávamos
já de pé. Era manhã de um domingo alegre,
de um céu azul e de uma modorra cálida. A Dona Domingas,
ainda com pena do Vina (o pobre estudante que tinha que se formar
para resgatar as jóias da mãe na Caixa Econômica
Federal... Gargalhadas), preparou-nos um café de reis!
Foi buscar pão quentinho para a gente! Fechamos a conta
no hotel e resolvemos ir para Morro de São Paulo.
Chegamos
ao cais onde se toma a balsa para Morro, às 8:15. Tinha
acabado de sair uma catraia... A próxima, só nove
e meia. Pensamos no que fazer... O sono era terrível! Chegamos
à conclusão de que era melhor tomarmos o ônibus
até a Ilha de Itaparica. Praia por praia, era melhor estar
perto de casa. E assim rumamos para a rodoviária. Tomamos
o ônibus das nove. Chegamos em Bom Despacho por volta das
doze e meia. Não queríamos ir direto para Salvador,
afinal, era domingo! Resolvemos dar um pulo em Amoreiras, localidade
da Ilha onde eu tenho uma casinha. Passamos a tarde em Amoreiras
e regressamos para Salvador. Quase não ficávamos
em pé de tanto sono...
Meus
amigos, buggymaníacos do Planeta, essa viagem até
Valença foi coisa de maluco! Querem saber o que é
“talento para o que não presta”? Imaginem dois
caras programarem um passeio tranqüilo, com um objetivo simples
(afinal, iríamos a uma cidade próxima, apenas para
tomar umas cervejas e fotografar um buggy – do Dalminho,
o qual aliás não fotografamos de forma alguma...
Hehehe). Nada mais seguro e ingênuo do que isso, correto?
Acabamos por reviver um pedaço da Odisséia do Homero!
(gargalhadas). Afinal, Coisas convencionais acontecem com pessoas
convencionais... E nós somos o Alf e o Vina!!! (gargalhadas).
A
próxima missão já está marcada. Em
junho, levaremos a cultura buggeira até a cidade de Valente,
sertão da Bahia, onde era fabricado, até 1993, um
buggy que levava o mesmo nome da cidade. O convite está
aberto a todos... Mas aconselho: façam seguro de vida antes,
porque para andar com o Vina... (gargalhadas)
Abração,
Alf
|