Desde
que entrou para o rendoso mercado dos veículos especiais,
a Mariauto notou a performance fora-de-estrada que seus clientes
solicitavam do Buggy Cheda. Por isso, a empresa paulista resolveu
modificar seu projeto, a fim de cumprir com maior eficiência
as necessidades dos consumidores off road. Assim nasceu o Selva.
Os buggies são veículos
idealizados para o lazer e para as praias, e têm na simplicidade
de projeto e na carroceria de fibra de vidro argumentos indiscutíveis
a seu favor. Mas é óbvio que esta filosofia de versatilidade
e descompromisso, induziu muitos dos proprietários dos
simpáticos carrinhos a achar novas utilizações
para eles, notadamente no fora-de-estrada. Mas, apesar de responderem
relativamente bem a estas aplicações, os buggies
jamais poderiam concorrer de igual para igual com veículos
projetados para elas. No entanto, por serem veículos mais
acessíveis do que os especialmente construídos para
o fora-de-estrada, e por apresentarem manutenção
simples - quase todos os buggies são construídos
sobre mecânica Volkswagen refrigerada a ar - estes veículos
vêm sendo cada vez mais utilizados para trafegar em péssimas
estradas de fazendas e cidades do interior.
Ingressando no ramo de buggies
no final de 1984, a Mariauto tem fabricado o Cheda com resultados
comerciais bastante satisfatórios. E, como dissemos em
matéria publicada na edição 26 de 4x4
& PICKUP, ele continua a ser um dos poucos que apresentam
uma solução estética acima da média
entre os similares. Detectando esta nova tendência de mercado,
a empresa investiu no desenvolvimento de duas novas versões
baseadas no antigo Cheda. Uma delas é o Endurance, um modelo
mais sofisticado - inclusive com preparação de motor
- próprio para velocidades mais altas. A outra criação
da Mariauto é este Selva, que vem ao encontro das aspirações
daqueles que querem um veículo que possa chegar a lugares
de difícil acesso com melhor desempenho.
O SELVA
É
claro que o ponto de partida para o desenvolvimento do Selva foi
o bem sucedido Cheda, que manteve as mesmas boas características
de construção e as mesmas dimensões exteriores
e interiores. Como principal novidade, o Selva recebeu um novo
capô, com um rebaixo que acomoda o estepe - inexistente
no irmão mais velho. Aliás, a ausência de
estepe é um problema crônico dos buggies, que são
construídos sem que se tenha qualquer tipo de preocupação
com este indispensável complemento. Se por um lado agora
se pode contar com a segurança do estepe (e com uma aparência
mais agressiva e acentuada de veículo fora-de-estrada),
por outro perdeu-se o que restava do pequeno espaço para
bagagens sob o capô e também um pouco da visibilidade.
Apesar de adaptar-se quase que inteiramente ao veículo,
os poucos centímetros que o pneu deixa para cima da linha
do capô, são suficientes para projetar o ângulo
de visão do motorista vários metros à frente
do que seria desejável. Devido às pequenas dimensões
do capô, o rebaixo criado só é suficiente
para acomodar uma roda de 14x6 polegadas e seu respectivo pneu.
Isso significa que este conjunto roda/pneu equivale aos utilizados
na dianteira e, no caso de um furo em um dos pneus traseiros -
que são de outra medida, 10x15 polegadas - o Selva terá
que se deslocar até o borracheiro mais próximo com
uma pequena descompensação na suspensão traseira.
Em todo o caso, ainda é melhor que ficar imóvel
em locais remotos.

Além
disso, o Selva recebeu outros acessórios que o diferenciam
do antigo Cheda: utilíssimo seletor de tração
que atua independentemente em cada uma das rodas traseiras, novos
parachoques reforçados que permitem melhores ângulos
de ataque e saída, telas protetoras dos faróis,
reboque para carreta, guincho manual, estribos, proteção
para lanternas, faróis de milha, faróis direcionais
para serviço, farol auxiliar na traseira, camburão
suplementar de 20 litros e escapamentos com saídas mais
altas - para facilitar ultrapassagem de riachos e poças
profundas.

Cuidada a parte que caracteriza
a estética e a complementação de acessórios,
seria também conveniente que o Selva ganhasse maior eficiência
quanto às possibilidades de transpor obstáculos.
Para isso, a suspensão traseira passou a adotar os amortecedores
da Kombi - em função do maior peso suspenso das
rodas e pneus de grande largura e diâmetro - o que também
vai garantir um melhor funcionamento do conjunto nas solicitações
severas das aventuras off road. Utilizando-se das regulagens normais,
tanto a suspensão dianteira quanto a traseira, foram alteradas
de forma a dar ao Selva alguns centímetros a mais de vão
livre do solo e, consequentemente, maior mobilidade em terrenos
difíceis.
O interior é o mesmo do
Cheda, mas o Selva recebeu um volante de maior diâmetro
que facilita as manobras em pequenos espaços. O Selva pode
vir equipado com a capota de plástico convencional - preta
ou bege - ou somente com uma capotinha "de serviço",
sem as laterais, mais apropriada para o trabalho nas fazendas.
Para acentuar o clima de veículo fora-de-estrada, ele é
oferecido em apenas duas cores: marron e verde musgo.
O SELVA NO SEU HABITAT
Naturalmente os buggies não
costumam apresentar excelentes comportamentos e, surpreendentemente,
o Selva tem melhores reações que o Cheda. Apesar
das suspensões ligeiramente levantadas, os novos amortecedores
na traseira e o maior acúmulo de peso na dianteira - composto
pelo novo capô, estepe, macaco, chave de roda, novo parachoque
e o guincho, deixaram o Selva um pouco mais estável. Claro
que ainda falta muito para se obter o compromisso ideal de dirigibilidade,
conforto e estabilidade, mas não chega a comprometer -
ainda que permaneça a tendência do desgarramento
de traseira.
Em função da pequena
distância entre-eixos, o Selva tem bastante mobilidade e
facilidade na transposição de ressaltos e depressões.
Mas esta característica poderia estar bastante mais acentuada.
Com rodas e pneus de maior diâmetro, as relações
de marchas ficaram sensivelmente mais alongadas. Para que ele
adquirisse maior agilidade e força, seria conveniente encurtar
a relação do diferencial. Claro que esta observação
só é válida para os que pretendem - ou precisam
- trafegar em condições de terreno que exijam muito
do veículo. Excluídas estas ocasiões, o buggy
vai razoavelmente bem.
Durante nosso período de
avaliações descobrimos mais um inconveniente causado
pela presença do indispensável estepe. Depois de
uma chuva torrencial, tivemos que parar para abastecer o tanque
de combustível. Mesmo com abertura auxiliada por duas molas
a gás, o capô não é dos mais leves
e, assim que foi levantado, uma verdadeira enxurrada desabou dentro
do compartimento dianteiro - mais precisamente sobre a caixa de
fusíveis. Percebemos, então, que o rebaixamento
onde se aloja o estepe, não tem um sistema de dreno para
esta situação - o que faz com que ele se transforme
em uma verdadeira piscina.
Com
o seletor de tração, o Selva vai muito bem na lama
ou em valetas onde uma das rodas motrizes perde tração.
E, apesar de ter um comportamento um tanto atípico por
causa do pequeno curso da suspensão - frequentemente uma
das rodas fica suspensa quando a depressão a ser transposta
é muito profunda - ele passa com relativa facilidade.

CONCLUSÃO
O Selva mantém as mesmas
boas características de conforto, posição
do motorista, e volume de informações fornecido
pelo variado painel de instrumentos. Continua sendo muito agradável
de dirigir e, mesmo que sua melhor performance ainda se apresente
nos terrenos arenosos das praias, passou a comportar-se melhor
em situações off-road. Nas estradas e em altas velocidades,
ainda continua sofrendo bastante a ação dos ventos
laterais, mas este é um problema que não poderá
ser solucionado, sem o comprometimento do vão livre do
solo e calibragens de suspensão - que fariam com que o
Selva perdesse as características de veículo fora-de-estrada.
(Caio Moraes)

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