Um negócio famoso nas dunas
inserido no site em 17/07/2004
atualizado em 12/09/2004
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A Gazeta Mercantil publicou esta reportagem e depois repetiu-a reportagem em uma edição especial sobre o Rio Grande do Norte - Balanço Anual/99. As fotos que estavam nesta reportagem, são de autoria de Renata Victor e encontram-se no final desta página.

Patrícia Raposo – de Parnamirim

Marcos José Oliveira das Neves, nascido há 60 anos, cresceu dentro de uma oficina, Gostava de brincar com as ferramentas e, brincando, terminou aprendendo a arte da mecânica com o pai. Era o germe do que frutificaria, anos depois, quando abandonou os estudos, no terceiro ano ginasial, para trabalhar com uma das atrações mais originais da indústria turística do Rio Grande do Norte.

Em 1974, seu Marcos, como é chamado, patenteou, com a marca Selvagem, o "bugey" (sic), versão brasileira do internacional "buggy", uma espécie esportiva de jipe, que hoje, como os jegues autóctones, incorporou-se de forma natural à paisagem das imensas dunas do litoral potiguar.

Logo, a Oliveira e Neves, empresa criada por seu Marcos para produzir o veículo, começou a oferecer oportunidades de emprego e a promover a imagem do estado como um bom destino para quem curte o verão nordestino.

Ele desenvolveu o projeto do Selvagem em um galpão no município de Parnamirim, na Grande Natal. E não demorou muito para que o carrinho de seu Marcos se tornasse o preferido entre os "bugueiros", os motoristas credenciados para fazer passeios nas dunas. Isso porque é o único oferecido com motor zero quilômetro e com garantia Volkswagen.

A história do Selvagem resulta, na verdade, da experiência adquirida pelo jovem Marcos quando trabalhava com o pai desmontando antigos carros militares, comuns em Natal durante a Segunda Guerra. Isso, por conta da base americana instalada na cidade naquela época.

Quando decidiu seguir seu próprio caminho, Marcos foi trabalhar na oficina mecânica da primeira revenda VW do estado. Fez cursos de mecânica e quando estava maduro decidiu montar a própria oficina em parceria com um primo.

Em 1973, um amigo perguntou se ele seria capaz de fazer um carro que pudesse andar nos "morros de areia". Apesar de belas, as dunas não são muito convidativas para passeios a pé. Marcos montou, então, um buggy de alumínio e chapa de ferro para o amigo. 0 carro começou a chamar atenção por onde passava. Quando as pessoas descobriram para que servia, começaram as encomendas. Quatro de início. Não dava para ser mais; o carro era feito a mão.

Com o advento da fibra de vidro, Marcos encontrou o material ideal. Foi quando passou a produzir o "imortal" Selvagem. 0 novo produto agradou. Marcos recebeu 14 encomendas. A oficina já se dedicava mais a produzir do que consertar. 0 motor era de fusca, comprado em ferro velho.

Três anos depois, graças a um contrato com a VW, passou a montar carros zero quilômetro, ainda com motor de fusca e depois de Kombi. "Nos tomamos montadores autorizadas da VW, que passou a dar garantia aos nossos clientes", lembra. 0 chassis também era fornecido pela VW e adaptado na Oliveira e Nunes. Há quase dez anos, o próprio Marcos passou a fabricar o chassis, bem como quase dois mil dos cinco mil itens do Selvagem. Do que é comprado a terceiros, 90% sai de São Paulo.

A produção ainda manual e limitada encarece o produto, cujo modelo "S" custa R$ 23,5 mil, preço que sobe para R$ 23,8 no modelo "L", que leva mais fibra de vidro. Hoje, 26 anos depois de construir o primeiro carro, seu Marcos continua a utilizar a mesma técnica: um molde de madeira que recobre de fibra de vidro. "0 carro tem motor 1.6, tração nas rodas traseiras e a vantagem de não enferrujar", diz Margarida Santos, a prima que há 20 anos está à frente do departamento financeiro.

A marca firmou-se tanto que a razão social mudou para Selvagem. Na época do Cruzado, foram vendidos mais de 600 carros em dois meses. "As pessoas pagavam 10% de entrada e parcelavam o resto para receber o carro quatro anos depois", lembra Margarida. Os buggies espalharam-se pelo Nordeste e chegaram até o Sul e Norte do Brasil. A praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco tem até associação de bugueiros.

Foi uma época de expansão. A Selvagem abriu filial numa área próxima, gerou empregos, ampliou instalações, sempre recorrendo ao escambo. Quando precisava ampliar, freqüentemente trocava buggies por tijolos e outros materiais. Até hoje, parte da empresa funciona nas instalações de um antigo aviário. "Humildade é nossa marca registrada", diz dona Margarida.

0 fascínio pelo Selvagem, apesar do seu patenteamento estimulou o aparecimento de novas empresas do ramo. Mas o Selvagem, embora mais caro, continuou em vantagem. Os concorrentes não conseguiam produzir um carro zero quilômetro nem oferecer garantia de montadora. Usavam motor recondicionado.

A proliferação dos buggies fez bem ao Rio Grande. Eles se tomaram tão ligados à paisagem local que ir a Natal e não fazer um passeio de buggy, exageram os nativos, é como ir ao Rio e não subir no Pão de Açúcar.

Genipabu, Jacumã e tantas outras praias oferecem o passeio diariamente e nem o preço salgado inibe os turistas. Na alta estação, percorrer seis praias num desses carrinhos não sai por menos de R$ 120,00. Na baixa, o preço cai para R$ 80,00. Se o passeio for só por Genipabu, custa R$ 40,00. Quem tem seu próprio carro fatura bem. Quem trabalha para terceiros, ganha metade do valor de cada passeio. Mas o inventor do buggy não pode dirigir pelas dunas que ajudou a desbravar porque não é credenciado. "É uma das coisas que lamento", diz.

A perspectiva de faturar diariamente faz com que muita gente e até as crianças desejem ser bugueiros. Abraão da Silva, que tem 12 anos e trabalha num loja em Genipabu, não hesita quando perguntam o que vai ser quando crescer: "bugueiro".

Mas não é um mercado fácil. Há cerca de 600 veículos circulando pelas dunas do estado e para garantir a renda dos motoristas foram criadas normas estritas liara a circulação. No entanto, a Selvagem já produziu mais de 3,5 mil carros.

Com isso, os potiguares passaram a ter uma relação especial com o buggy. Ter um, para muitos deles, é como ter uma casa na praia. "Tenho vontade de ter um Selvagem. É mais bonito e melhor.", diz a assessora de comunicação do Sebrae, Maria Célia Freire Cabral. Isso garantiu o mercado por muito tempo, até que chegaram os importados.

Se os fabricantes encontravam no Selvagem um concorrente imbatível, a chegada dos importados foi demais para eles. E para o próprio Selvagem. Depois de levar à falência todas as outras fábricas no Rio Grande, cerca de dez, os importados atingiram a empresa do seu Marcos. "No começo foi um problema. Mas nos salvamos com o diferencial de oferecer um carro que não enferruja", resiste Margarida. 0 problema é convencer o mercado. No ano passado, a Selvagem produziu bravamente 80 veículos, faturando R$ 1,8 milhão. Só a Polícia Militar levou 50.

"Os impostos correspondem a 70% do preço", queixa-se a diretora financeira. "Apesar disso, não fabricamos carros para sair de linha. Não trabalhamos com obsolescência planejada. 0 Selvagem é imortal", gaba-se. A empresa tem capacidade para produzir um carro por dia.

Depois de enfrentar o aperto que culminou com o fechamento da filial e demissão de 90 funcionários, seu Marcos mantém-se tranqüilo e determinado. Ele, que já construiu até avião com motor de Kombi e foi o único capaz de desenvolver, por duas vezes, um equipamento para desmonte de radares utilizados pela unidade da Aeronáutica responsável por pesquisas espaciais em Natal - a Barreira Roxa -, está diversificando para manter sua empresa funcionado. Passou a produzir barcos, catamarãs e caçambas destinadas a carregar mercadorias acopladas ao buggy. Tudo por encomenda. Ele diz que apesar dos importados vai continuar acreditando e levando a vida de sempre: da casa para a empresa e da empresa para casa. Sempre de Selvagem.

Se quiser, entre em contato com eles através do telefone 0-XX-84-272.2146 (Sra. Margarida Santos). Ou através do site da empresa:

http://www.buggyselvagem.com.br

 

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